A Investigação Qualitativa em Teses e Dissertações dos Programas de Mestrado e Doutorado em Educação: Estado do Conhecimento
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A Investigação Qualitativa em Teses e Dissertações dos Programas de Mestrado e Doutorado em Educação: Estado do Conhecimento

2. INVESTIGAÇÃO EM PROCESSO : etapas, método, metodologia e procedimentos de pesquisa

Para iniciar este item são descritas etapas da pesquisa em foco. Elas traduzem os objetivos propostos e alcançados durante a investigação e, consistem em:

  • pesquisa documental: levantamento e organização dos dados referentes às teses e dissertações sobre a temática Formação de Profissionais da Educação;
  • mapeamento das teses e dissertações em um relatório descritivo;
  • leitura integral de uma amostra da produção discente localizada e disponível em meios eletrônicos;
  • elaboração de resumos analíticos no Modelo Red Latinoamericana de Información  y  Documentación (Reduc);
  • mapeamento dos resumos como fase inicial de sistematização de dados;
  • elaboração de matriz analítica, segundo categorias e descritores que emergiram da sistematização das informações;
  • análise de conteúdo da amostra selecionada.

No que tange ao método da investigação reiteram-se as assertivas tanto de Oliveira (1998) quanto de Gatti (2002) como se segue: a primeira destaca que o método distingue “[…] um percurso escolhido entre outros possíveis” (1998, p. 17). A segunda autora adverte que, dado o caráter intersubjetivo do sujeito que faz uso do método, os pesquisadores necessitam entende-lo para além da sua lógica, tendo em vista  que “não são externos, independentes de quem lhe dá existência no ato de praticá-lo” (Gatti, 2002, p. 55).

Nessa perspectiva, o materialismo histórico dialético pode ser o método mais condizente com as Ciências Humanas, entre elas a Educação. Embora outras matrizes do conhecimento e métodos de investigação delas derivados também sejam aplicáveis às Ciências Sociais e ao campo educacional, na pesquisa em pauta adotou-se o materialismo histórico dialético. Essa opção prende-se ao fato de que as leis e categorias da dialética desenvolvem o conhecimento, tendo por fundamento a concretude e a multiformidade dos processos e dos objetos, para interpretar a realidade objetiva.

O materialismo dialético é um método científico que se preocupa com a interconexão de todos os aspectos de cada fenômeno e que resulta de um processo de movimento, de interdependência e interação para compreensão do mundo. É nesse processo de conhecimento das leis, categorias e conceito da dialética, os quais existem objetivamente, que os pesquisadores passam à compreensão do real.

A opção por esse método foi embasada em diversos autores, notadamente, nos ensinamentos de Ianni (1998), segundo o qual a dialética

compreende a realidade como movimento, modificação, devir, história.  […] A pesquisa, ou reflexão, caminha da aparência para a essência, das partes ao todo, do singular ao universal, guardando esses momentos e suas articulações na explicação, na categoria construída pelo pensamento (Ianni, 1998, p. 145).

Na mesma linha interpretativa, Gamboa (1999, p. 114) menciona que a dialética tem como procedimento produzir análises-antíteses-sínteses, por isso se vale de categorias “tais como o concreto, a interligação todo-partes, a transformação quantidade-qualidade”, exigindo dos pesquisadores muito rigor epistemológico e metodológico para produzir novas sínteses. Assim, evita-se que o método dialético corra o risco de “ritualizar-se”. Uma das formas de inibir esse risco é ter a compreensão de que a dialética é uma maneira, uma forma, um método de pensar as contradições da realidade. A reflexão sobre o movimento do real, sobre a dinâmica interna dos elementos que são negados pelo seu contrário, e que é negado e superado por novos elementos, em uma sequência de afirmação, negação e superação. Essa dinâmica obstrui qualquer dogmatização do método. Trata-se de “uma evolução por contradição: esse é o processo dialético!” (Severino, 1993, p. 135).

De acordo com Frigotto

[…] a dialética, para ser materialista e histórica, não pode constituir-se numa “doutrina” ou numa espécie de “suma teológica” […]. Para ser materialista e histórica tem de dar conta da totalidade, do específico, do singular e do particular. Isto implica dizer que as categorias totalidade, contradição, mediação, alienação não são apriorísticas, mas construídas historicamente (Frigotto, 1999, p.73).

Kopnin (1978) considera que “o sistema lógico da dialética materialista não pode ser interpretado sem que nele se defina o lugar das categorias” que

[…] são formas de pensamento  e como tais devem ser incorporadas aos conceitos. As categorias, assim como outros conceitos, são reflexos do mundo objetivo, uma generalização dos fenômenos, processos que existem independentemente da nossa consciência. As categorias são produto da atividade da matéria de certo modo organizada – [pelo] cérebro, que permite ao homem representar adequadamente a realidade (Kopnin, 1978, p. 105) .

Por mais abrangente que sejam, no entanto, as categorias são reduções das propriedades gerais e da multiplicidade dos diversos fenômenos, processos e objetos sensorialmente perceptíveis. Para o materialismo dialético, a categoria essencial presente na realidade objetiva é a contradição, fundamentada na lei da unidade e luta dos contrários, na lei da contradição.

No tocante à metodologia desta pesquisa, por princípio e coerência, foi assumida a investigação quantitativa. Sob a ótica de Bogdan e Biklen (1994) essa modalidade de investigação é rica em pormenores descritivos relativamente a pessoas, locais,discursos, conversas, depoimentos, detalhes. Os investigadores qualitativos preocupam-se mais com os detalhes do processo da pesquisa do que com os resultados.

Os autores discorrem sobre a pesquisa qualitativa afirmando que essa modalidade  “[…] enfatiza a descrição, a indução, a teoria fundamentada, o estudo das percepções pessoais e o significado do objeto […]” (Bogdan; Biklen, 1994, p.11). Assim, o alcance do produto é secundarizado.

Uma boa recomendação é a de Kincheloe (1997), para quem os pesquisadores devem se preocupar não apenas com o que estão pesquisando, mas, principalmente, indagar por que investigam, pois não existem valores neutros na forma de ler, de analisar, de resumir, de sintetizar. Outra recomendação do autor refere-se ao compromisso com a divulgação da veracidade dos resultados encontrados, independentemente do agrado ou do desagrado dos pesquisadores.

Quanto aos procedimentos metodológicos, faz-se notar que o primeiro foi a localização das teses e dissertações, consoante o objeto. Para tanto, utilizou-se da análise documental, com consulta à totalidade dos trabalhos defendidos, no período 2003-2010, e disponíveis nos sites da Capes e nas bibliotecas virtuais das universidades e dos próprios PPGE.

Para selecionar as teses e dissertações, com o objeto formação de profissionais da educação, utilizaram-se 49 palavras-chave. Dos trabalhos discentes localizados, selecionou-se uma amostra intencional composta por 19 PPGE (23% do total de 83 reconhecidos pela Capes). Neste procedimento foram respeitados os seguintes critérios: a) manter linha de pesquisa sobre formação de profissionais da educação; b) espelhar a diversidade institucional constituída por universidades públicas, comunitárias e privadas; c) haver representação de programas consolidados, com número de defesas superior a cem; d) garantir a representatividade dos programas de criação recente, com poucas dissertações defendidas no período; e) atender a diversidade de localização geográfica dos programas no País. 

Outro procedimento de pesquisa adotado, bastante complexo, foi a categorização dos conteúdos que foi precedida da elaboração dos resumos expandidos, à luz do modelo definido pela Reduc. A leitura integral e os resumos expandidos foram fundamentais para a construção da matriz analítica integrada por unidades temáticas, conteúdos, descritores e registro de suas frequências. A análise de todos os dados constantes da matriz analítica permitiu a emersão de seis categorias.

3. INVESTIGAÇÃO EM PROCESSO: as categorias de análise 

Quanto à configuração das categorias de análise, Richardson (1999) adverte que todo sistema de categorias deve apresentar concretude e fidelidade. As categorias devem ser ao mesmo tempo independentes e exaustivas, mostrar a sistematização como validade, relevância e objetividade, para os investigadores que estão envolvidos com ela. A subjetividade inerente ao processo de categorização precisa ser minimizada, pois é ela que leva, por exemplo, diferentes pesquisadores considerarem os mesmos dados de uma mesma investigação em categorias diferentes.

Com vista a garantir que as categorias fossem independentes, exclusivas, fidedignas, concretas e objetivas foram construídas ementas, marcos balizadores de cada categoria. Tal como é recomendado pelos metodólogos, muitos cuidados foram tomados em relação aos descritores. Estes foram desenhando as unidades temáticas e conteúdos contidos nas teses e dissertações e contemplados nas análises.

Outra recomendação observada foi a atualização e sincronia de conceitos de  profissional da educação com as tendências pedagógicas contemporâneas  e as políticas educacionais do século XXI.

O esforço de agrupar os trabalhos discentes em uma ou outra categoria respeitadas a  natureza, a abrangência e os contextos em que ocorreram resultou em uma visão mais organizada e articulada da produção.

Desse exaustivo processo de sistematização de informações combinado com análise de conteúdo emergiram as seguintes categorias: a) concepções de docência e de  formação de professores (CDFP); b) políticas e propostas de formação de professores (PPFP); c) formação inicial (FI); d) formação continuada (DC); e) trabalho docente (TD); d) identidade e profissionalização docente (IPD).

[1] Os dados relativos às teses e dissertações foram consultados no site da Capes. Disponível em <htpp://conteudoweb.capes.gov.br/cadernoavaliacao>. Acesso em 22 fev 2012. Como esse órgão ainda não havia disponibilizado os dados de 2010, esses foram estimados e cotejados com os dados constantes nos sites dos PPGE, de onde são válidos e confiáveis.

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