Produção e uso do conhecimento: tensões e desafios na investigação educacional
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Produção e uso do conhecimento: tensões e desafios na investigação educacional

Ludomedia | QNOW Artigo Produção e uso do conhecimento: tensões e desafios na investigação educacional

2. A tensão qualitativo-quantitativa: uma crise de paradigma ou algo mais –  Kuhn revisitado

A teoria de Thomas Kuhn, na sua História das Revoluções Científicas (1978, orig. 1962),  corresponde a uma visão estruturalista dos processos transformativos, homóloga doutras abordagens da mesma matriz em campos científicos tão diversos quanto a História (Spengler, 1937; Toynbee, 1976, orig. 1918) ou a Psicologia do Desenvolvimento nas suas várias dimensões – desenvolvimento cognitivo, moral, social, reportadas a autores referenciais como Piaget (2010, orig. 1967), Kohlberg (1984) ou Flavell (1979).  Trata-se, em todas estas macro teorizações, de visões de ambição universalista, que buscam estabelecer e explicar as regularidades dos processos, antecipando o seu caráter cíclico, no que à história e à história do pensamento se refere, e o seu desenvolvimento em estádios universais no caso dos processos do desenvolvimento psicológico. Uma das críticas mais ativas à teoria de Kuhn nas décadas subsequentes à publicação do texto fundador (1962) residiu justamente na acusação da proximidade da sua teoria a uma estrutura ainda marcada pela visão  positivista, também ela procurando estabelecer “leis” gerais da evolução do pensamento cientifico.

Para situarmos brevemente a síntese da proposta Kuhniana, cujo impacto epistemológico foi imenso, bem como a controvérsia gerada, retomamos texto anterior da autora. Segundo Roldão (2001), sintetizando Kuhn, um paradigma constitui-se como sistema estruturado de regras, pressupostos, métodos  e princípios aceites que enquadram a prática de uma comunidade científica, cujos profissionais – os cientistas, na análise de Kuhn – reproduzem, na sua actividade, esses formatos de produção, não criando novas soluções mas trabalhando numa lógica de resolução de puzzles, em que as  peças são diferentes, mas a resolução obedece a regras pré-estabelecidas idênticas.  Os períodos de vigência incontestada de um paradigma são, na terminologia Kuhniana, períodos de ciência normal. Um paradigma (científico) entra em crise quando surgem anomalias que não podem ser resolvidas no quadro desse paradigma. Desencadeia-se ao longo da crise uma procura de novas formas de produzir conhecimento, quer por tentativa de assimilação e ajuste do paradigma mediante algumas alterações menores que não afetem a estrutura global, quer por rutura do paradigma e reconstrução de um novo sistema de regras, pressupostos, métodos – um novo paradigma. O período de crise caracteriza-se como de ciência extraordinária, e corresponde a uma grande produtividade de inovação, novo conhecimento  e  conflitualidade. Caso se verifique a rutura e não a assimilação das anomalias, ocorre então o que Kuhn designa de  revolução científica, concretizada na emergência de um novo paradigma”(Roldão, 2001).

A perceção da vivência de um período claramente de crise, no campo epistemológico, associado a um discurso de pós-modernidade com vários campos e níveis de teorização, é clarificada de forma exemplar por Boaventura de Sousa Santos (1987), remetendo, na sua análise, o tempo que vivemos a partir das décadas finais do século XX para  a situação de crise entre um paradigma científico positivista herdado da modernidade, ainda dominante, e a emergência de um outro paradigma de contornos ainda não claramente definidos mas já bem visíveis –  que este autor designa por “paradigma emergente”

Neste pequeno, controverso e densíssimo texto intitulado “Um Discurso sobre as Ciências”, que não abordaremos senão na linha  de  clarificação que aqui buscamos, Sousa Santos (1987) posiciona-se, na  ótica de cientista social que é,  face ao referencial epistemológico proposto por Thomas Kuhn, que adota, embora  também o critique, assumindo que o “paradigma emergente” se configurará sobre os alicerces epistemológicos aportados pelo advento das ciências sociais, que virão a gerar um outro paradigma abrangente:

“(…) o avanço do conhecimento das ciências naturais e a reflexão epistemológica que ele tem suscitado têm vindo a mostrar que os obstáculos ao conhecimento científico da sociedade e da cultura são de facto condições do conhecimento em geral, tanto científico-social como cientifico-natural. Ou seja, o que antes era a causa do maior atraso das ciências sociais é hoje o resultado do maior avanço das ciências naturais. Daí também que a concepção de Thomas Kuhn sobre o caráter pré-paradigmático (isto é, menos desenvolvido) das ciências sociais (…) tenha de ser abandonada ou profundamente revista.” (p. 43)

Os grandes eixos de rutura do paradigma positivista residem, segundo Sousa Santos, em avanços científicos relativamente recentes em áreas como a teoria da relatividade de Einstein, ou a física quântica, e situam-se essencialmente (1) na quebra do valor absoluto da lei e da causalidade, (2) na rutura da associação necessária e exclusiva do rigor científico ao rigor matemático, (3) na alteração da perceção das relações objeto-sujeito,  e ainda (4) no reconhecimento da natureza contextual e não “pura” do saber científico.

A perspetiva em que se enquadra este debate tem assim como referencial de campo científico as Ciências Sociais no seu conjunto  e na sua emergência histórica. A leitura do conflito de paradigmas, que subjaz à discussão atual quantitativo-qualitativo, resulta  em grande parte da  contraposição das ciências sociais  às ciências ditas exatas; por outro lado e segundo outros autores, como Boaventura Sousa Santos, situa-se numa nova visão de ciência que possa vir a ressignificar, em termos de paradigma, o binómio ciências naturais/ciências sociais neste cronograma amplo da evolução do conhecimento científico, adote-se ou não a visão estruturalista de Kuhn.

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