Historial e Definições de Análise de Conteúdo

Historial e Definições de Análise de Conteúdo

António Pedro Costa
João Amado

Texto originalmente publicado em Costa, A. P., & Amado, J. (2018). Análise de Conteúdo Suportada por Software (2a). Oliveira de Azeméis – Aveiro – PORTUGAL: Ludomedia

Introdução

A Análise de Conteúdo é uma técnica de análise de dados, colhidos em várias fontes, mas expressos, preferencialmente, em textos ou em imagens. A natureza destes documentos pode ser muito variada, tal como material de arquivo, textos literários, relatórios, notícias, comentários avaliativos de determinada situação, diários e autobiografias, artigos selecionados através do método de revisão da literatura, transcrições de entrevistas, textos solicitados sobre um determinado tema, notas de campo, etc. etc. O mesmo se poderá dizer quanto à natureza das imagens: fotografias, filmes, ilustrações de livros, etc.

1.1 História da técnica de Análise de Conteúdo

Já proferimos que a Análise de Conteúdo é um processo natural, espontâneo, que todos nós utilizamos quando sublinhamos ideias num texto e procuramos organizar as suas ideias. Mas a história da Análise de Conteúdo, como método científico, portanto sujeita a procedimentos controlados e sistemáticos, remonta aos tempos da 1ª Grande Guerra, como instrumento para o estudo da propaganda política difundida nos meios de comunicação, tendo como principal referência dessa época a obra de Harold Lasswell, Propaganda in the World War, de 1927.

Na 2ª Grande Guerra foi utilizada na análise de jornais, com o intuito de detetar indícios da propaganda nazi nos meios de comunicação norte-americanos, sendo também de sublinhar a obra da responsabilidade coletiva de Lasswell e Leites, intitulada Language of Politics (1949).

A partir de então, com mais ou menos hesitações de caráter epistemológico e metodológico (procurando frequentemente reforçar o caráter quantitativo), a Análise de Conteúdo tem sido aplicada em muitos campos das ciências humanas, tais como linguística (análise do discurso), antropologia (exame de mitos e lendas), psicanálise e psicologia clínica (análises temáticas dos discursos dos doentes mentais), história (análise sistemática de documentos), etc., tendência esta consagrada e desenvolvida a partir do Congresso de Alberton House, que teve lugar em 1955 (Krippendorff, 1990; Vala, 1986). A necessidade de um congresso dedicado a esta temática fazia-se sentir devido ao facto de a técnica começar a soçobrar face a críticas e ataques de várias origens. A crítica mais contundente referia-se, em especial, a um dos seus ‘defeitos constitutivos’, ou seja, “a intervenção do codificador no estabelecimento do sentido do texto“ (Ghiglione & Matalon, 1992, p. 180). Contudo, nos nossos dias é rara a investigação que, de modo exclusivo ou combinado com outras técnicas de recolha e análise de dados (por exemplo, questionários), como meio para a construção de outros instrumentos (ainda, o questionário), ou como metodologia central, não faça dela algum uso.

Atualmente, a utilização de um software de apoio a esta técnica permite maior rapidez, rigor e processos de alta complexidade realizáveis com segurança; existem já para cima de duas dezenas de pacotes de software, como o NVivo (www.qsrinternational.com), o Atlas.ti (www.atlasti.com), o MaxQDA (www.maxqda.com). Mais recentemente começaram a surgir programas que funcionam na cloud computing, como é o caso do webQDA (www.webqda.net). Uma das vantagens desta inovação é a de possibilitar o trabalho colaborativo em pequenos ou grandes grupos, análise de grande volume de dados, de uma forma que não era possível antes (Costa, 2016). Mais adiante daremos conta da evolução de todos estes instrumentos e falaremos, com mais detalhe, das suas vantagens.

1.2 O conceito de Análise de Conteúdo

O que se pretende com esta técnica, em termos genéricos, é ‘arrumar’ num conjunto organizado, sistemático, tanto quanto possível quantificado, de categorias de significação o ‘conteúdo manifesto’ dos mais diversos tipos de comunicações, de modo a poder interpretá-los tendo em conta os fatores diversos que levaram à sua produção.

O conceito de Análise de Conteúdo tem sofrido uma evolução ao longo dos tempos; numa primeira fase, sob a influência de Berelson (1952, apud Krippendorf, 1990), um dos clássicos desta técnica, a preocupação maior era a de descrever e quantificar os conteúdos manifestos dos documentos em análise; nesta perspetiva, de pendor positivista, a técnica incidia sobre as denotações, ou seja, sobre o primeiro sentido do discurso.

Numa fase seguinte (Osgood, 1959, apud Vala, 1986; Bardin, 1979), para além da sua função descritiva e da sua incidência sobre as denotações, a Análise de Conteúdo assume uma função “inferencial, em busca de um significado que está para além do imediatamente apreensível e que espera a oportunidade de ser desocultado” (Amado, Costa, & Crusoé, 2017, p. 303). Interessa-se, portanto, também pelas conotações dos discursos, que muitas vezes têm mais a ver com as entrelinhas, as reticências, o subentendido, e o tom do que com o que é explícito (Esteves, 2006; Morgado, 2012).

O processo inferencial, no entretanto, precisa de obedecer a regras e de se sujeitar a algum controle, não vá a imaginação do analista fazê-lo cair em “inferências ingénuas ou selvagens” (Vala, 1986, p. 103). Esta preocupação desperta a necessidade de mecanismos que confiram fiabilidade e permitam a validação de todo o processo de análise; reflexo desse novo passo é a definição de Análise de Conteúdo oferecida por Krippendorff (1990, p. 28), um dos autores mais reconhecidos nesta matéria: “uma técnica de investigação que permite fazer inferências, válidas e replicáveis, dos dados para o seu contexto”.

A replicabilidade surge, assim, como fundamental, para que se possa oferecer confiança no processo desenvolvido de um ponto de vista técnico, na identificação de categorias. Como diz Lima (2013, p. 8) “importa que os procedimentos de classificação sejam consensualizados, para que diferentes pessoas possam realizar essa classificação de forma semelhante. É igualmente essencial que o processo de Análise de Conteúdo seja transparente, público e verificável”. Pode dizer-se, então, que o rigor se alcança com a aplicação dos procedimentos adequados acompanhada por uma descrição clara e ajustada dos mesmos, onde não falte a definição de cada categoria ou subcategoria, bem como se tornem patentes, em tabelas ou matrizes, alguns dos momentos e resultados intermédios ou finais; assim sendo, é justo dizer que rigor não se confunde com análise estatística.

Por outro lado, a produção de inferências assenta no estabelecimento de relações, com base em deduções lógicas e pertinentes, entre quatro polos diferenciados:

1. Os dados. Estes, por sua vez poderão ser analisados segundo determinadas perspetivas, assentando (entre outros aspetos a ter em conta nas questões prévias e nos objetivos da pesquisa) sobre:

a. o que é dito (neste caso, trata-se de uma análise temática, a mais comum em Análise de Conteúdo, e que pode incidir sobre a distinção de temas, o recorte de categorias e subcategorias no interior desses temas, e sobre o cálculo da sua frequência relativa no conjunto do corpus documental);

b. por quem é dito (por exemplo, as afinidades entre a mensagem e o estatuto ou o estado psicológico de emissor);

c. a quem é dito (análise de relações, estabelecendo as afinidades entre a mensagem e os seus destinatários);

d. com que finalidade (análise de objetivos de determinada mensagem);

e. com que resultados (análise avaliativa, por exemplo, das respostas dos destinatários à comunicação).

2. Os quadros de referência de quem produziu a comunicação (intenções, representações sociais, pressupostos, ‘estados de espírito’, valores e símbolos, bem como aspetos biográficos e traços de personalidade do autor da comunicação, etc.)

3. As condições de produção ou contexto de emergência desses mesmos dados em análise (o contexto local e as circunstâncias sociais e culturais, conjunturais, políticas, históricas em que o documento em análise foi produzido e que nele se refletem);            

4. Os quadros de referência de quem analisa, exigindo que o analista esteja preparado teórica e metodologicamente para fazer as suas interpretações. Isto é, o analista deve conhecer e mobilizar quadros de referência bebidos, em grande parte, numa ou mais teorias das ciências humanas e sociais, deve saber usar a intuição e a criatividade na identificação e recorte de temas, categorias e subcategorias, e deve estar apetrechado com um saber fazer e um saber ser que lhe permita tomar decisões adequadas em face dos dados e fugir à subjetividade incontrolada e à falta de ética.

A definição oferecida por Robert e Bouillaguet (1997) parece-nos ser uma das mais abrangentes, englobando a perspetiva descritiva, objetiva e a perspetiva inferencial, subjetiva: “A Análise de Conteúdo stricto sensu define-se como uma técnica que possibilita o exame metódico, sistemático, objetivo e, em determinadas ocasiões, quantitativo, do conteúdo de certos textos, com vista a classificar e a interpretar os seus elementos constitutivos e que não são totalmente acessíveis à leitura imediata” (p. 4).

Em texto anterior (Amado, Costa, & Crusoé, 2017) sintetizámos todas estas considerações nos seguintes termos: “Podemos, pois, dizer que o aspeto mais importante da Análise de Conteúdo é o facto de ela permitir, além de uma rigorosa e objetiva representação dos conteúdos ou elementos das mensagens (discurso, entrevista, texto, artigo, etc.) através da sua codificação e classificação por categorias e subcategorias, o avanço (fecundo, sistemático, verificável e até certo ponto replicável) no sentido da captação do seu sentido pleno (à custa de inferências interpretativas derivadas ou inspiradas nos quadros de referência teóricos do investigador), por zonas menos evidentes constituídas pelo referido ‘contexto’ ou ‘condições’ de produção. Julgamos que é este aspeto que permite aplicar criativamente a Análise de Conteúdo a um leque variado de documentos (comunicações), muito especialmente sobre aqueles que traduzem visões subjetivas do mundo, de modo a que o investigador possa ‘assumir’ o papel do ator e ver o mundo do lugar dele, como propõe a investigação de cariz interacionista e fenomenológico” (p. 306).

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