Círculo Hermenêutico Dialético como Carro-Chefe da Metodologia Interativa e Ferramenta para Sequência Didática

Círculo Hermenêutico Dialético como Carro-Chefe da Metodologia Interativa e Ferramenta para Sequência Didática

Ludomedia Artigo Círculo Hermenêutico Dialético

Maria Marly de Oliveira
Universidade Federal Rural de Pernambuco – Brasil

Texto originalmente publicado em Oliveira, M. M. de. (2014). Círculo Hermenêutico Dialético como Carro-Chefe da Metodologia Interativa e Ferramenta para Sequência Didática. In F. N. Souza, D. N. Souza, & A. P. Costa (Eds.), Investigação Qualitativa: Inovação, Dilemas e Desafios (Volume 1) (1a, pp. 13–37). Ludomedia

Sinopse

Este capítulo trata da sistematização da Metodologia Interativa privilegiando a investigação qualitativa, tendo como principais fundamentos: a complexidade, a dialogicidade, o círculo hermenêutico-dialético, a visão sistêmica e o método de análise hermenêutico-dialética. Esta metodologia adota a técnica do Círculo Hermenêutico-Dialético como carro-chefe, para  realização de entrevistas. Como análise conclusiva da coleta de dados, é trabalhado o cruzamento de dados por meio da interface entre os resultados dessa técnica, dos dados obtidos na aplicação de questionários e de outros instrumentos de pesquisa, fundamentados nos aportes teóricos que dão sustentabilidade ao objeto de estudo. Como desdobramento da Metodologia Interativa, também trabalhamos, neste capítulo, a sistematização da Sequência Didática Interativa para o contexto de sala de aula, tendo como principal fundamento a Didática Francesa. Para melhor compreensão desses dois instrumentos de pesquisa, são apresentadas algumas exemplificações extraídas de Dissertações que trabalharam a Metodologia Interativa e a Sequência Didática Interativa.

Introdução

Apesar dos avanços das pesquisas que priorizam a investigação qualitativa aplicadas em várias áreas do conhecimento, ainda encontramos críticas a esse tipo de abordagem no que se refere à subjetividade, que perpassa, sobretudo, na análise de dados.  Partindo desse pressuposto, e com base em experiências exitosas por mais de uma década na construção de artigos científicos, dissertações e teses com aplicação da Metodologia Interativa, estamos oferecendo alguns subsídios que possivelmente possam ajudar a minimizar o viés da subjetividade em pesquisas que priorizam a investigação qualitativa.

Nesses dois últimos anos, acatando sugestões de colegas e alunos da pós, decidimos redimensionar essa metodologia, para dar conta de pesquisas que trabalham com as temáticas complexidade e transdisciplinaridade. Muito embora a complexidade e a dialogicidade já se fizessem presentes no processo da coleta de dados na fase inicial de construção da Metodologia Interativa, em nossa tese de doutoramento em educação na Universidade de Sherbrooke (Quebec) Canadá, essas concepções não eram trabalhadas de forma teórica. Daí porque estamos apresentando uma nova sistematização da Metodologia Interativa, explicitando os fundamentos do pensamento complexo e fazendo uma interface entre a dialogicidade de Morin (1998, 2005), que é compreendida como a complementariedade entre princípios que aparentemente são antagônicos, e a dialogicidade em Freire (1987, 2004) que prioriza a ação e a reflexão como práticas para uma educação libertadora.

Neste capítulo, a sistematização da Metodologia Interativa e da Sequência Didática Interativa (SDI) está focada em três eixos, a começar por uma rápida retrospectiva da evolução filosófico-histórica da hermenêutica, enfatizando a construção teórico-filosófica de Hans Georg Gadamer (2009), cujos fundamentos se encontram em sua obra Verdade e Método (1997), tendo como paradigma a descrição fenomenológica de Husserl (1982). No segundo eixo, descrevemos o processo de sistematização e aplicabilidade da Metodologia Interativa, exemplificando-a por meio de alguns recortes de duas Dissertações que já foram defendidas na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Como terceiro eixo, apresentamos a descrição de uma nova ferramenta didático-metodológica, que se constitui um desdobramento da Metodologia Interativa, denominada de Sequência Didática Interativa (SDI). Para melhor entendimento desta ferramenta, fazemos uma descrição dos passos básicos da SDI para o contexto da sala de aula. A Metodologia Interativa e a Sequência Didática Interativa têm como carro-chefe o Círculo Hermenêutico Dialético (CHD).

1.  EVOLUÇÃO FILOSÓFICO-HISTÓRICA DA HERMENÊUTICA

Etimologicamente, a hermenêutica é um termo de origem grega  “hermenènêus”, que significa explicar, traduzir, interpretar. Como arte da interpretação, essa técnica perpassa pelo domínio da teologia e da filosofia, para interpretação de textos sagrados e difíceis. No domínio da teologia, a hermenêutica é entendida como interpretação de textos sagrados para garantir dogmas e assegurar a reforma bíblica; enquanto instrumento da filosofia, a hermenêutica facilita a redescoberta e compreensão da literatura clássica. Wilhelm Dilthey (1833-1911) alargou essa concepção como sendo a interpretação de todas as criações e atos humanos, inclusive da própria vida humana.

Platão chamou os poetas de intérpretes; Santo Agostinho interpretou o Velho Testamento e usou conceitos neoplatônicos como alegoria, para explicar a ascensão da alma em seu sentido espiritual. A interpretação alegórica se manteve como padrão por toda Idade Média. Os protestantes, em oposição ao catolicismo, passaram a usar a expressão exegese bíblica. Schleiermacher (1768-1834) interpretou Heráclito, Platão e a Bíblia, afirmando que emcada nível de interpretação estamos envolvidos em um círculo hermenêutico.

Em 1927, Heidegger em sua obra Ser e Tempo fala na interpretação do ser humano, o ser em si mesmo, e, sob sua influência, a hermenêutica passou a ser o tema central da filosofia continental. Ao interpretar algo, estamos desenterrando os pensamentos e as intenções do autor, imaginando-o em sua posição (contexto) ou relacionando-o a um todo mais amplo, que lhe dá significado. Essa última posição produz um círculo hermenêutico-dialético, visto que não podemos compreender as partes sem compreender o todo.Heideggerfaz a conexão entre o significado de textos históricos e questões sobre o sentido da vida.

Com Hans-Georg Gadamer (1997) e outros, a hermenêutica retornou às suas raízes antigas e medievais. Não mais perguntamos o que o autor quer dizer com o texto, mas o que o texto quer dizer a nós, ou para nós. Para esse autor, o círculo tem um sentido ontologicamente positivo na compreensão, possibilitando ao intérprete elaborar um projeto que, no decorrer da interpretação, esteja aberto a mudanças e até ao surgimento de um novo projeto.

Quando o intérprete se propõe a interpretar um texto, ele não o faz de mente vazia; ele tem a pré-compreensão e conceitos elaborados, ou até alguns preconceitos. Durante a interpretação, o movimento é circular; o intérprete tem um projeto que vai se modificando e se reestrurando de forma mais consistente e mais livre de possíveis erros.

O círculo abre espaço para um constante reprojetar, ou seja, conceitos prévios,  com o passar do tempo, geralmente passam a ser substituídos por outros mais adequados ao contexto. O primeiro projeto vai se modificando à medida que a coisa vai sendo decifrada. O conhecimento histórico é um processo e não pode ser descrito segundo o modelo de um conhecimento mais objetivo. A hermenêutica é o encontro do ser através da linguagem, visto que a existência humana implica sempre a linguagem, que não pode ser concebida sem uma compreensão, por ser um fenômeno complexo e universal (Almeida, 2002).

Segundo Gadamer (2009, p. 234), “quem quiser compreender um texto deve estar pronto a deixar que ele lhe diga alguma coisa. Uma consciência educada hermeneuticamente deve ser preliminarmente sensível à alteridade do texto. Essa sensibilidade não pressupõe “neutralidade” objetiva em esquecimento de si mesmo, mas implica numa precisa tomada de consciência das próprias pressuposições e dos próprios prejuízos”.

Ainda com base em Gadamer, podemos afirmar que pertencemos a um contexto, seja ele histórico ou cultural: ele nos fornece pressupostos para nos relacionarmos com o mundo. Temos conceitos formados na nossa existência, conceitos que trazemos no processo de nosso desenvolvimento, e que, às vezes tornam-se preconceitos para novos conceitos; é desta forma que obtemos a compreensão do mundo e das coisas do mundo, sem que a mente fique estagnada e inerte em determinado conceito formado e petrificado. Portanto, sempre que vamos ao encontro do novo, temos antecipadamente pré-compreensões que favorecem a compreensão daquilo que até então era estranho e desconhecido.

2.  METODOLOGIA INTERATIVA: SISTEMATIZAÇÃO E APLICABILIDADE

Os principais fundamentos teóricos que dão sustentabilidade à Metodologia Interativa estão alicerçados no pensamento complexo de Morin (2008), na dialogicidade de Freire (1987, 2004), na visão sistêmica segundo Vasconcelos (2002), no método de análise de conteúdo de Bardin (1977) e no método hermenêutico-dialético de Minayo (2004). Esta metodologia adota como carro-chefe para realização de entrevistas, a técnica do Círculo Hermenêutico-Dialético (CHD) que facilita estabelecer uma interação entre pesquisador e os sujeitos de pesquisa no processo de construção e reconstrução da realidade.  A Metodologia Interativa é definida por Oliveira (2013, p. 124), como sendo um:

Processo hermenêutico-dialético e dialógico que facilita entender e interpretar a fala e os depoimentos dos atores sociais em seu contexto, na perspectiva de uma visão sistêmica da temática em estudo.

Essa metodologia se aplica a diferentes áreas de conhecimento, podendo ser trabalhada com os mais variados e complexos temas de pesquisa, estando aberta a possíveis adaptações segundo o contexto em que se pretende realizar uma determinada pesquisa, seja de um tema pertinente ao domínio das Ciências Exatas, Ciências Humanas e Sociais. Também quanto aos instrumentos de pesquisa, esta metodologia que se circunscreve dentro de uma abordagem qualitativa, além da realização de entrevistas por meio da utilização da técnica do CHD, recomenda a aplicação de questionários em outro grupo que faça parte do contexto das pessoas entrevistadas, visando a análise com o cruzamento de dados.

 2.1  Definindo o círculo hermenêutico-dialético (CHD)

A técnica do Círculo hermenêutico-dialético para realização de entrevistas é assim definida por Oliveira (2013, p. 131):

Processo de construção e reconstrução da realidade por meio de um vai-e-vem constante (dialética) entre as interpretações e reinterpretações sucessivas dos indivíduos (dialogicidade e complexidade) para estudar e analisar em sua totalidade um determinado fato, objeto e ou fenômeno da realidade.

Esse processo complexo e dialógico visa atenuar ou minimizar ao máximo a subjetividade do pesquisador, deixando que os atores sociais façam livremente uma interpretação da realidade em seu movimento histórico-social.

A realização das entrevistas por meio da aplicação do CHD é recomendável para ser trabalhada com uma amostra definida entre quatro a oito pessoas, enquanto a aplicação de questionários deve ser realizada em outro grupo que faça parte do contexto em que trabalham os sujeitos que foram selecionados para as entrevistas. Como por exemplo, aplicar o CHD para um grupo de professores e os questionários com os alunos desses professores. Esse procedimento é importante por fornecer informações que facilitam a análise por meio do cruzamento de dados, tais como: entrevistas, questionários e leituras de documentos oficiais, sempre à luz dos fundamentos teóricos que dão sustentabilidade ao objeto de estudo.

Para melhor compreensão da técnica do CHD no processo da realização de entrevistas, vejamos um exemplo para aplicação desta técnica em um grupo de oito pessoas. Este exemplo é demonstrado a seguir, em que construímos uma figura com base nos aportes teóricos da temática em estudo quanto à realização de pesquisas para produção de novos conhecimentos.

Figura 1 Círculo Hermenêutico-Dialético - CHD
Figura 1 – Círculo Hermenêutico-Dialético – CHD1

1 Nessa Figura baseada em Guba e Lincoln (1989), o primeiro círculo pontilhado representa o grupo de entrevistados; o segundo ciclo simboliza a dinâmica do vai-e-vem das construções e reconstruções da realidade pesquisada (síntese de cada entrevista). Cada entrevistado é representado pela letra E (entrevistado) e a síntese das entrevistas por C (construção da realidade). Assim procedendo, temos na figura citada: o resultado (síntese) da primeira entrevista (E1) que é entregue a segunda pessoa após ter respondido o mesmo roteiro da entrevista anterior. Depois da leitura da síntese 1 pelo entrevistado dois é realizada a entrevistas seguinte e após dar suas respostas, recebe a síntese das entrevistas anteriores, e faz seus comentários, juntando novos elementos. Neste exemplo, é representado por C1, C2 e assim sucessivamente até o último entrevistado. O terceiro círculo em que aparece no centro a palavra REALIDADE, representa o resultado do encontro final com todas as pessoas entrevistadas, e/ou a síntese geral das entrevistas realizadas. Nesse encontro final com os entrevistados deve ser discutido o resultado global das entrevistas realizadas, para comentários e novos aportes, dando-se aí o fechamento da pré-análise dos dados da realidade estudada em seu movimento.

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