A Investigação Qualitativa em Teses e Dissertações dos Programas de Mestrado e Doutorado em Educação: Estado do Conhecimento
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A Investigação Qualitativa em Teses e Dissertações dos Programas de Mestrado e Doutorado em Educação: Estado do Conhecimento

4. REVELAÇÕES DAS TESES E DISSERTAÇÕES: QUAIS SÃO OS RESULTADOS?

Como registrado a pesquisa em foco contou com 24.284 trabalhos discentes da área de Educação defendidos nos 83 PPGE credenciados pela Capes, no período 2003-2010. Na primeira seleção feita nos 19 PPGE foram identificadas 3.108 teses e dissertações, estudos, cujo objeto é formação de profissionais da educação. Enfatiza-se que esse número de trabalhos pode não representar a totalidade, considerando-se que foram capturados por meio eletrônico nos sites e alguns deles não estavam disponíveis para consulta on line.

Na releitura dos trabalhos, foi possível chegar a um refinamento que delimitou 1.343 teses e dissertações. Procedida a uma análise acurada, foram descartados alguns que apenas tangenciavam a temática. Assim, a análise de conteúdo foi realizada em um total de 858 trabalhos, 134 teses e 724 dissertações.

Os autores Bardin (2004), Franco (2005), Cardoso, Alarcão e Celorico (2010) e Brzezinski (2012) foram fontes fundamentais para a elaboração da análise de conteúdo.

A disposição desses trabalhos discentes, por nível de formação e por instituição pode ser conferida no Quadro I. É importante destacar, mais uma vez, que a amostra intencional que permitiu escolher as 19 instituições formadoras atendem aos critérios de seleção indicados no item dois desse capítulo.

Quadro 1
Teses e dissertações sobre Formação de Profissionais da Educação, por instituições, programas e níveis. Período 2003-2010

Fonte: Brzezinski, I. Relatórios Descritivos, 2010-2012

Observa-se, nesse quadro, que na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) só foram defendidos trabalhos, em 2007, com o objeto formação de profissionais da educação da educação no período de oito anos. Na Universidade Católica Dom Bosco não houve registro de trabalhos discentes no período 2003-2007 e na Universidade de São Paulo também não há registro de trabalhos no período 2008-2010. Esses registros tornaram-se impossíveis porque a equipe de colaboradores constituída de mestrandos e doutorandos foi reduzida em face de estes concluírem seus cursos, o que os impediu sua continuidade no projeto. Essa situação inviabilizou a captura dos trabalhos completos nos sites dos dois PPGE, comprometendo a elaboração dos resumos expandidos e a análise de conteúdo.  

Despertam atenção os dados do Quadro 1. Eles mostram que, entre 2003 e 2010, a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo contou com 115 (13%) trabalhos com a temática formação de profissionais da educação, seguida de outra universidade comunitária a Pontifícia Universidade Católica do Paraná com 105 (12%). A Universidade Federal do Rio Grande do Sul ocupa o terceiro lugar com 75 (9%) trabalhos defendidos.

No Quadro 2, onde se encontra a distribuição das teses e dissertações por categoria,  nota-se um maior interesse dos doutorandos e mestrandos para os seguintes temas:  trabalho docente, identidade e profissionalização docente e formação inicial.

Quadro 2
Dissertações e teses por categoria e ano. Período 2003-2010

AnoCPFPPPFPFIFCTDIPDTotal
200347810251367
20042141211151165
200531422203728124
200621425173824120
200792830215654198
2008151926242731142
20096102510261087
20102818516655
Total43114166118240177858
Fonte: Brzezinski, I. Matriz Analítica, 2010

A categoria de menor frequência é Concepções de docência e de formação de professores. Isso denota a fuga dos estudantes da pós-graduação estudantes em Educação de investigações teóricas com conotações epistemológicas, gnoseológicas, históricas, sociológicas, psicológicas, didáticas e metodológicas. Os trabalhos conceituais sobre docência e formação de professores também afugentam os pesquisadores menos experientes.

No Gráfico 1 podem ser visualizados os percentuais de cada uma das seis categorias.


Gráfico 1 – Categorias de Análise. Produção 2003-2010
Fonte: Brzezinski, I. Relatório Analítico, 2012

A categoria 1 Concepções de docência e de formação de professores conta com 43 trabalhos, revelando que somente 5% dos autores das teses e dissertações deram importância às questões de fundamentos, em contrapartida predominam estudos sobre trabalho docente, categoria que abrangeu 30% das 858 teses e dissertações. 

4.1 Categorias e descritores analisados

Não é demais reafirmar que o procedimento metodológico nesta etapa da investigação consistiu na análise de conteúdo dos trabalhos completos. Esse procedimento é comparável ao trabalho do arqueólogo: o pesquisador se debruça sobre os traços dos documentos que ele descobre.

Para Freitas e Janissek (2000, p. 38) o principal objetivo da análise de conteúdo “é a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção com a ajuda de indicadores”.

Categoria 1: Concepções de Docência e de Formação de Professores

No Quadro 2 podem ser verificados os percentuais de teses e dissertações defendidas ano a ano incluídas nesta Categoria 1.

Gráfico 2 – Categoria 1. Concepções de Docência e de Formação de Professores. Percentuais anuais
Fonte: Brzezinski, I. Relatório Analítico, 2012

A escassez de investigações de natureza teórica é preocupante.  Julga-se necessário que os PPGE incentivem mais esse tipo de investigação.

A análise de conteúdo de um dos trabalhos de mestrado revela reflexões feitas sobre concepções de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Trata-se de estudos sobre fundamentos didáticos inerentes a um currículo que venha a acolher os saberes e os conhecimentos tácitos que os adultos carregam em sua bagagem cognitiva apreendidos, em experiências cotidianas, ainda que sejam pessoas não letradas. Segundo a pesquisadora cultura, trabalho e tempo devem ser os eixos organizadores do currículo da EJA.

Outras dissertações e teses estão incluídas nesta categoria. Seus autores elaboraram estudos epistemológicos e buscaram explicitar significados de alguns conceitos. São consideradas pesquisas emergentes: a) o ethos no currículo de ensino religioso; b) a proposta transdisciplinar na formação de professores; b) o cinema brasileiro e a educação musical de pedagogas produzindo novos sentidos sobre escola e o trabalho docente; c) as relações sociais para superação da violência no cotidiano escolar; d) formação do professor para a docência associada à preparação do pesquisador, como se inscreve nas diretrizes curriculares nacionais; e) o fetiche da pedagogia pelas competências no ensino superior e na educação profissional; f) a formação de professores presencial-virtual como lógica concêntrica no desenvolvimento profissional e pessoal; g) a educação política do professor e seu papel na formação para a cidadania; h) a formação dos educadores embasada na Pedagogia da Alternância, visando sua atuação nos assentamentos do Movimento Social dos Sem Terra (MST); i) o ensino fundamental de nove anos; j) a prática de um professor em curso para adolescentes em conflito com a lei; k) as reflexões de um professor de Matemática, que utiliza uma linguagem muito própria para uma atividade dirigida a alunos da 5ª série do ensino fundamental; l) as discussões sobre os resultados de matemática de 5ª série do ensino fundamental alcançados no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), de 2005.

Às teses e dissertações já analisadas acrescenta-se um trabalho que faz denúncias de maus-tratos de professores contra crianças, temática silenciada nas pesquisas. A esse mais quatro estudos conceituais, agregam dissertações sobre docência. Em dois deles, os descritores dizem respeito ao curso de História, em outros dois, os autores do campo da saúde detêm-se em questões teóricas: um trata das matrizes emergentes do pensamento pedagógico na formação de professores da área da saúde, outro, discute a crise paradigmática da ciência no currículo da Educação Física.

Como tema emergente, ainda, alinham-se duas dissertações nessa categoria. Uma de 2008, em que foram tomadas como descritores as acepções de docentes de informática educativa nas salas de recursos de deficiência auditiva de uma rede municipal. Outra, de 2009, em que o pesquisador analisa a teoria da aprendizagem significativa aplicada em aulas experimentais de Física, com o objetivo de compreender concepções de professores referentes às animações interativas com uso de novas tecnologias. Em 2008, nessa categoria aparece uma tese que foca estudos relativos à função social e papel político do professor. Sua autora imputa à definição de papel social um conteúdo ideológico que caracteriza o professor, ora, como essencialmente político e determinado, com base na abordagem socialista, ora, por uma visão tecnicista sustentada na abordagem conservadora racionalista.

Categoria 2: Políticas e Propostas de Formação de Professores

A ementa desta Categoria 2 indica que são contemplados textos teóricos que envolvem pesquisa de campo cujos dados revelam o processo de avaliação de políticas governamentais. Abrigam-se nesta categoria 13% das teses e dissertações (cf. Gráfico 3), e o ano de 2007 marca o ápice da produção nessa categoria.

Gráfico 3 – Categoria 2. Políticas e Propostas de Formação de Professores. Percentuais anuais
Fonte: Brzezinski, I. Relatório Analítico, 2012

Na casuística desta investigação, é notável a incidência de estudos discentes que analisam e avaliam o impacto de programas de formação inicial de professores já atuantes nas redes de ensino, porém, sem a desejada formação em nível superior que seja compatível com a área de conhecimento em que atuam na educação básica. Trata-se de curso denominado emergencial realizado de modo presencial, semipresencial e a distância. Consistem de cursos de “treinamento em serviço”, cujo viés neoliberal e mercadológico tem respaldo no LDB/1996 (cf. Art. 87, inc. IV, § 4º).

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